terça-feira, 10 de setembro de 2013

Deus Mendigo I








Ele olha para os arranha-céus apontando para o teto que ele criou.
Eu sou deus.
Estou perto de tudo, do céu ás pequenas coisas, converso com baratas.
Por que o homem não me enxerga mais?
Atravessa todos os dias, milhares deles, e nada de agradecer, e nada de rezar, nada de nada.
Durmo com insetos, com ratos, que me reverenciam pela madrugada.
Que frio.
_ Eu sou deus!
E por isso não vou morrer de câncer.
E por isso não morro de frio.
Graças à cachaça que meu querido filho Jesus larga aqui num canto.
Jesus... Lembra dele?
Difícil, ele cortou o cabelo e no momento se crucifica diariamente em algum sinal de transito.
Sinal de fé?
De ré...
Enxergar pra vocês significa cuspir, chutar, maltratar, xingar... Esqueceram que inventei o universo;
Tenho acesso a todas as verdades; todas as virtudes.
Do caviar ao churrasco de gatos, tudo passou por mim... Tolos!
Logo e por isso mesmo posso viver assim, deixando tudo de lado; necessidade tendo criado-a; fome, doenças, desespero, loucura, pequenos lampejos de minha própria essência.
E ainda vejo suas bocas reclamando de um tempo ruim, enquanto muitos morrem lá fora.
Bocejando excelências, exceto que apenas vícios farejo;
Falando de barriga vazia... Ora bolas alguém já ouviu falar na África? Procure se informar, não custa nada.
Alguns, enchendo seus pulmões, gritando:
_ É sua culpa velho safado, tudo criou!
Eu dei tudo a vocês, um mundo. Aonde viver e não onde passar fome. Onde plantar e não aonde guerrear. Matar-se como animais e isso que vocês fazem, criando armas e instrumentos capazes de quase tudo, menos de cessar o vazio de seus corações.
Criaram deuses de néon, eu sei, olho-os toda noite. Estúpidos rezam perante um refrigerante, um hambúrguer, um tênis. Gargalhadas infernais ao cair da noite, estão rindo porque a cada dia menos vocês vivem sem eles.
Onde está sua liberdade que tanto batem no peito?
Madalenas pairando nas esquinas esperando a buzina do trabalho.
Carros parando, ânsia, dentro deles um marido adultero;
Um senhor que procura alguma jovem com cheiro de leite;
Um maldito que terá uma surpresa ao bêbado transar com a própria filha. A própria filha ejaculada numa festa. A própria filha, eu sou deus, vocês pensam que isso me agrada!
Eu não sou seu índio
Eu não sou seu mendigo
Eu não sou seu maldito velho Noel.
O que esperavam “Boas festas”?
Ao cair das estrelas, seus jovens me chutando, chapados, batendo nas meninas, conjurando nomes blasfemos.
Eu sou deus.
Enquanto sou chutado por seu tênis de marca, sou privada para seus restos fast-food;
Enquanto vocês me queimam na rua eu grito cada vez mais alto
Eu sou deus!




Plaz Mendes


Imagem: deus mendigo