domingo, 11 de março de 2018

Guaranás






O primeiro morreu de doença provocada pela proximidade com o alto povo.

O segundo lutou bravamente e foi morto pelas balas.

O terceiro foi envenenado pelo garimpo na busca de ouro.

O quarto morreu de fome esquecido.

O último filho da terra vai cometer suicídio.



Esse texto faz parte do livro “Prisão Amarela” pela Editora Multifoco. Interesse? 
O livro será lançado no dia 7 de Abril. No espaço Bar Resenha Chef Gourmet , na Rua Abílio de Matos , 844, Porto da Pedra - São Gonçalo. Estaremos lá a partir das 16h.

Thiago Mendes

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Morro


Salvador Dali


A chuva que molhava as plantas e fazia alguns homens sonharem com melhor tempo em terras secas, tais como o inferno onde quase nada nasce e tudo um pouco morre, fez a tristeza daquele povo da região. As autoridades sempre preocupadas com a imagem cristalina dos televisores e dos índices de popularidade os havia esquecidos por completo.
A chuva não.
No morro ninguém sabia ao certo que aquele pedaço de terra que já foi feito de cemitério de escravos estava condenado.
Um relatório meses depois foi descoberto por algum gonzo perdido no meio de um número de papéis de todo o tipo, neles e entre eles estava o relatório condenando a colina e pedindo energeticamente que todos os habitantes daquele pedaço de terra fossem alocados para outra região.
A religião do povo daquela área estava dividida em grandes templos distantes e pequenos terreiros por perto.
Uma garota recorda um dia antes da catástrofe, que um preto velho tinha baixado e avisado severamente para seus filhos que aquela terra estava marcada de sangue.
Muita gente não entendeu, alguns resolveram cortar galinhas, outros diziam que era coisa do diabo. Outros, como a garota do relato, saíram dali imediatamente.
A chuva começou devagar, mas a tempestade cresceu durante a noite e os raios riscavam cada pecado dos pecadores que se reuniram no templo.
Quando a imprensa noticiou a catástrofe, um considerável grupo de pessoas já havia sido morto pelos escombros, outras insistiam em chorar ou ajudar nas buscas.
Foi decretado luto oficial.
Preto velho já avisou sobre os outros morros.
Mas as autoridades estão preocupadas demais com seus eventos midiáticos. O povo da região seca reza pela água do céu e os outros rezam para não cair nenhum raio em cima de suas cabeças. O pessoal do templo reza e pede benção, mas deus anda meio sem crédito e sua poupança vazia, logo depósitos e doações são bem vindos de todas as partes.


Plaz Mendes: Esse texto faz parte do livro “Prisão Amarela” pela Editora Multifoco. Interesse? Entre em contato!

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Caranguejo


Caranguejo da Rua da Aurora — Recife-PE



José Bernardino é pescador desde a sua infância e atualmente sustenta sua família com aquilo que é retirado dos mares e eventualmente dos mangues. Não estudou muita coisa, mas não tem dúvida ao ver os olhos de seus cinco filhos de que a comida tem ficado escassa por aquelas bandas. O número de peixes tem diminuído demais e o de pescadores não. Quando seus ancestrais se fixaram por ali, àquela terra era chamada na língua dos índios de “mãe”, mas também poderia ser conhecida como “paraíso”. Todas as noites ele e sua esposa rezavam para o Senhor dos senhores, para que ele iluminasse as pessoas daquela região e a regasse novamente a terra.

Certo dia voltando do mar, descontente por conta de uma péssima pesca, foi catar alguns caranguejos. Uma hora depois, com apenas três pequenos crustáceos, ao partir para a feira, subitamente uma estranha luz azul resplandeceu da lama e ali enfiando sua mão retirou um enorme caranguejo. Nunca havia visto um daquele tamanho. Retornou do mercado, mas decidiu não vender aquele estranho animal para mostrar a sua família. Soltou-o no quintal e algo incrível aconteceu, pois aquele bicho andava para frente e para trás. Acreditou ser um sinal de deus.

E estava certo.

Confiou ser um período de esperança.

E estava inteiramente enganado.

Nos cinco dias seguintes nada pescou ou catou do mangue. E não apenas ele, mas praticamente a maioria dos seus amigos. Na rede, apenas lixo. A situação se agravou pela enfermidade de sua esposa. Não teve outro jeito senão vender o caranguejo especial. Procurou um senhor bigodudo, dono de um restaurante chique no centro da cidade e comprador dos melhores frutos do mar, o qual dá um irrisório valor de centavos por bicho. Argumentou com o dono do restaurante, que o animal em questão merecia um valor melhor por ser bastante especial. O sujeito sequer deu bola para o fato daquela coisa não andar apenas para o lado. Pagou algumas notas por ele. Bernardo saiu imediatamente dali e subitamente uma dor se apoderou de seu peito, chorou e quis voltar para buscar o caranguejo… Tardou demais e resolveu seguir para a farmácia e comprar o remédio de sua amada. Ela ficou bem melhor.

No luxuoso estabelecimento, antes de os caranguejos irem para o aquário, os donos junto ao cozinheiro chefe vistoriavam todos os bichos em busca de falhas e lhes colocavam pequenos rótulos. A partir desse ponto, o preço deles subia em aproximadamente 200% no mercado. Apenas uma criança desconfiada percebeu no aquário o grande caranguejo se locomover para frente do espelho. Seus olhares se encontraram numa telepatia. Ninguém soube o que ocorreu.

Alguns instantes depois uma família rica destroçou-o junto a outros crustáceos ao molho de camarão, bebericando refrigerantes. Sucos gástricos e fortes dores insurgiram em todos no dia seguinte. Nunca mais voltaram àquele restaurante. O menino telepata ficou calado por três dias seguidos e diante de um psicólogo ao qual fora levado com emergência pelos pais preocupados, conseguiu balbuciar algumas palavras:

— Estamos todos condenados.



Esse conto faz parte do livro “Prisão Amarela” pela Editora Multifoco que será lançado em breve.

Thiago Mendes 

domingo, 8 de outubro de 2017

Poesia Cotidiana



Poesia surge no silêncio.
No momento do ônibus.
Na espera da fila do banco.
A poesia insurge no suor
das memórias arquivadas
Dos narizes sangrando.
A poesia inculta uma tela.
Uma nova realidade.
Uma outra perspectiva.
A poesia luta pela vida.
No respirar dos esquecidos.
No levantar dos acamados.
A poesia rufa tambores,
dança com os pés da deusas,
samba com as meias das baianas,
curte um tango com o deus da morte,
&
vislumbra e sucumba com os seus momentos.
Assim no momento que tu lê.
Assim no momento que tu vê.
Assim no momento que tu crê.
Assim no momento que afirma.
A poesia é a pedra no meio do caminho.
No meio do caminho há poesia.


Thiago Mendes

domingo, 10 de setembro de 2017

Beta





Tideland (Internet)






(((( Aquele pessoal do outro lado do vidro é gente estranha.
Pareciam sempre ocupados em algum tipo de frenesi consumista.
Sempre enchendo a casa com novos acessórios supérfluos.
Com certeza nossa existência naquele cômodo se devia a esse fato.
Embora meu tio morresse dois dias atrás vítima de um dos pequenos
habitantes. Esses com mania de nos pegar e ver se vivia fora d’agua.
Morria sempre.
Creio que entre vocês os mais velhos são os piores.
Apenas isso explica porque aquele senhor calvo sem dentes sempre
batia no vidro com sua bengala.
Eis um dia o recipiente quebrou.
O resto é um brilho verde.
Carpete.
E um risada sofrível dentro de um copo))))













Thiago Mendes


domingo, 30 de julho de 2017

Persona III




Eu gosto de Oscar Wilde.
Eu gosto tanto dele que fiz essa merda.
Lembrem se que sou professor de literatura juvenil.
E pego pesado com os fedelhos.
Tudo começou com ela.
Que fez meu corpo tremer desde o início.
Acostumado com o banheiro de minha mãe.
Desculpe o que eu disse?
Mas ela nem quis me ouvir.
E veio a desgraça.
Longe dali uma linda sereia avistei.
E logo o camarão veio amargo na boca.
E percebi que nada valia à pena.
Perdi a pena da vida naquele dia.
Mas ai-surtei mais doido.
Acreditando que todo mundo louco.
Era o melhor mundo.
E curti uma vida adoidada.
Cheia de álcool.
Sexo & drogas.
Mas veio-ela.
Esperta como diabo.
Arisca-feito raposa.
Sexual como uma rainha.
Aranha serpente que roubou meu coração.
E fomos viver juntos.
Ajuntados.
Contas.
Enamorados.
Camas.
Casados.
Quartos.
Briguentos.
Banheiros.
E expulsamos nosso amor aos pontapés.
Foi quando lembrei-dos-filhos-das-putas.
E de Oscar Wilde.
E matei aquilo que mais amava.
Aperte — — -os — — -cintos e senti o vazio da minha mão.
Espatifei a caminho entre o socorro e a solidão.

Thiago Mendes

sábado, 22 de julho de 2017

Persona II

Os Embaixadores Holbein




Acordei com o inferno na barriga, uma briga entre alguns demônios pra resolver quem faria mais barulho na periferia ...

Busquei a mama sopa e nada.

Agora alguns copos de café e os demônios já são titulares, pseudo-intelectuais. ... Jogando fumaça para e esperando uma francesa passa r.
Uma briga entre quem é o melhor filósofo e eu esforço em particular para acabar com isso.

Privação de dor porque o odor é insuportável.

A francesa de saia caminha, o perfume é caro, mas não é meu apenas voyeur baby.
O sufoco quase sofro meu corpo com o doce desejo ardente pimenta quente escorre com mel de abelhas. A paz reina no albergue e as candidaturas são um acordo de unirem forces para vencê-lo.
A francesa de longe me observa e observo minha língua suja de líquido, cor de merda.

Vomito
Vomito
Vômito

Refresco meu corpo com leite quente e nem tente me dizer que minha vida anda confusa francesa de merda Francesca mulher crediário que manda e desmanda e comanda minhas contas.
Mas não minhas bocas
E como.
Porque é bom
Feito um bombom
E cuspo
Porque é sujo
Tipo impuro.

Mas o que me importa vinte mil vacas chorando sem pasto com suas tetas chupadas.
Os patos inchados de tantos raros foi grés.
Os sapos costurados e transmutados em delicatessen exuberantes de brujos e cozinheiros zen contemporâneos.
Como minhocas espremidas em quilos de burguers e copos de açúcar preto e potatos gordurosos batatosos recheados de molhos quiméricos das falanges infernais.

E os brindes!

Intrincadamente feitos e encaixados em zonas de exploração e pagamentos por centavos e vendidos por zilhões.
Enquanto transfiro parte do meu estomaco e figaço para a lixeira e deposito meu esgoto dentro de qualquer parquinho de infância.

Crianças!

Não é permitido deixar-se distraído por seu sexo distante anjo moreno luxo de Paris que me domina e comanda e anda por detrás de meus dejetos beliscando meu braço e sugerindo um pesadelo.

Nova Ordem Mundial.
Nova Ordem do Google.
Nova ordem.

Peço que vocês deixem-me com minha ignorância benção dos deuses seus diabinhos diabruras e canduras e Honduras pagam quase nada por seus ossos de guerra luxo para poucos; Comida falta a muitos eu quero é bis.
Bisbilhoteiro.
Tiroteiro.
Na rua avenida praça urbana ciruela de bando de mendigos correorum como luzes dos bancos de dinheiro fiat, mas uma bala de verdade e fere e dói e choro por que papai não voltou.

E meu rim esquerdo parou.

Hordas de malandros espremendo músculos e roubando ósculos vaginais das moças putas casadas maltratadas pelo desejo de sexo todo dia.
Expulsando os demônios dos corpos curtidores estranhos dos sujeitos todo o tipo de anonimato com manias excêntricas todo dia.
Confundido poder com patrão / padrão tipo bebador amargado de sangue de cassetetes / cacetadas com manchas de sangue todo dia.
Tira nos insanos vesanos sem sabor saboreie o mar, mas não pode esperar.

Espera sim.

Cartão sem débito conta fechada morte anunciada dor no parto parindo os dentes e os entes perdidos entre páginas de um caduco livro relógio cuco jogo para compro depois.

Pois o meu fim atrasou;

Thiago Mendes