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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Vida Off





Acordo cedo para ir ao trabalho.
Pego o ônibus lotado mas incrivelmente quieto.
Pessoas com fones de ouvido.
Sentadas nos bancos sozinhas.
Curvadas em algo.
Um comichão me incomoda.
A vista parece não ser como antes.





No trabalho esforço duro.
Colegas, papéis e chefias.
Amanhã e dia de pagamento.
No refeitório as bocas se cruzam com garfos e facas.
Ainda assim um silêncio percorre as mesas.
Uma náusea me incomoda.
E as pessoas continuam conectadas vidradas.
Com olhares perdidos numa nova história.

Desço da condução. 
A noite preenche as ruas e avenidas.
As lâmpadas acesas iluminam os transeuntes.
E tenho certeza que esqueci de alguma coisa.




Chego em casa cansado.
Mais um dia de labuta.
Depois de banho quarto.
E eis que o vejo amargo.
Berrando como um bebê querendo mama.
Tomada.
Oh Moloch deus das curtidas.
Moloch deus dos zaps.
Moloch dos selfies.
Esquecido num canto escuro ele balbucia sua condenação.
Perdi amigos perdi contatos perdeu o dia.
Menos um dia da minha vida.

Amanhã não posso abandonar meu celular.



Imagens: Morgue File

Vídeo: Trecho do filme Howl com James Franco onde se debruça sobre a vida do grande poeta Beat americano Allen Ginsberg. E sobre seu livro poema Uivo. Recomendo á todos.


Thiago Mendes.






quarta-feira, 16 de abril de 2014

Beat IV


Ginsberg


Eu não sou seu brinquedo de estimação
Não sou seu judeu que vai para fornalha
Não sou seu negro espancado por carecas filhos da puta do abc
Que espécie de abcdário é esse.
Com A, escrevo amputar.
Com B de bater.
Com consentimento.
Diário.
Você bate em seus filhos que não são filhos da puta, mas da madre que puta, pois deixa que eles apanhem do pai aquele careca que não mora no abc, mas é um filho da puta por bater em seus filhos pequenos, quase brinquedos em suas mãos desgraçadas, sujas de sangue humano como seus governantes, sujas de sangue que aquele idiota cisma em chamar de sangue negro, dói ver essa tolice ainda nos dias de hoje e ver um jovem negro tendo o braço amputado por fascista, racistas, nazistas eu quero é mais que se foda; que a extrema excomunhão os alcance que o diabo os amanse que adianta tudo isso?
Que adianta falar para o vento e pedir para ele fazer a curva e repete teimosamente que não pode se não pode mudar seu próprio destino, não pode nada, você não pode nada como posso mudar meu destino cruel, não posso nada!
Posso escrever sem parar, posso e devo sem parar sem parar sobre seus malditos vícios de matar as pessoas, matar de fome, matar de esperança, matar de vergonha, matar e matar.
Amar que é bom acabou, mas se você quiser temos aqui um pouco de fome e pena, deve resolver seu caso ou se tiver paciência pode consultar nossos arquivos onde existe uma ótima rosa de Hiroshima para seu divertimento pessoal, quanto quer levar?
Eu não sou seu brinquedo de matar;
Eu não venero seu deus comercial das nove horas
Eu não vou perder minha esperança só por que sua pequena lança perfura meu coração todos os dias,
Todos os meses de ano,
Todos os intervalos de novela
Eu sou negro, sou judeu, sou gay, sou o que você não quer para seus filhos;
Sou mulher;
Sou árabe
Sou chinês;
Sou a porra toda na qual você quer jogar sua maldita bomba

Bomba atômica.

Bomba sentimental
Bomba que explode nos pobres
Jogando-os em qualquer esquina
Qualquer esgoto
Ou viaduto;
Enquanto estou com meus amigos num bar qualquer bebendo qualquer cerva com um mata rato na boca, estamos aqui, mas não pense que estamos indefesos contra sua ira social, estamos prontos para o que der e vier; não se esqueça disso, liberdade não se compra se conquista, estamos prontos e você esta?
Você está pronto para perder seu domínio?
 Está pronto para um mundo sem ilusões?
Estará?
Veremos como consegue reagir a isso
Ao terror de uma juventude insana
Presa em gaiolas por tempo de mais
Tempo demais;
Pronta para recuperar;
A vida;
A verdadeira vida


Plaz Mendes.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Supermercados








       Todo mundo já ouviu falar de um supermercado seja ele aquele que você compra suas coisas, ou o do Radiohead quem sabe do supermercado de Ginsberg...O caso todo não são as coisas que compramos mas talvez os rótulos que deixamos.

Quando penso em supermercados me lembro de uma vez, quando ao entrar naquela grande casa me vi cercado por passarinhos...Sério simplesmente os bichos estavam voando de um lado para outro, embora a maior parte das pessoas não estivesse muito interessada em pássaros e tudo o mais, mas sim nos preços.

Bem rótulos são historinhas que criamos em nossas cabeças acerca dos outros.

Qual o problema disso?

"Quando você me rotula você me nega"  
                                                                     Soren Kierkegaard


      Exatamente como disse o pensador dinamarquês, em nosso intuito de rotular tudo e todos a torto negamos todas as possibilidades existentes. Lidando com as pessoas como coisas que tem um valor e depois jogamos fora quando aquele "valor" perde sua essência. 

O que é o preconceito senão rótulos que repetimos mesmo que nem saibamos por durante nossa vida e assim os jovens negros são ladrões;
mulheres vadias;
muçulmanos suspeitos;
velhos chatos;

Não precisamos ficar presos a esses estigmas que se apresentam para nós, a verdadeira liberdade provem de estar livre dessas composições superficiais do senso comum. 

Em nosso modelo atual isso soa difícil em meio a faces que despejam a pseudo vida da pessoa, onde tudo parece ter uma notinha, uma foto, um defeito...

Parecendo mercadorias em supermercados com seus preços, qualidades e defeitos expostos nos rótulos, diferenciados por estantes, nichos...."Esse tipo de pessoa é legal, esse parece perigoso o outro nem vou chegar perto".

Não notamos mas repetimos essas historinhas em nossas mentes nos conformando com isso ou aquilo, justificando nossos atos, não somos pessoas ruins. "Veja ela não presta mesmo...aquele eu classifico como amigo o outro como colega, esse ai é falso".

Estamos vivendo?

ou consumindo nossas vidas como produtos embalados?

Cabe a cada um a resposta, mas por favor ela não estará no face, no Google, nesse blog, mas apenas dentro de você, na sua totalidade e não apenas num artificial pedaço de você.

Na próxima vez que estiver no supermercado procure pelos passarinhos....


Plaz Mendes






Mudrasavra